Não pense.
Não se perca em seus pensamentos.
Seus pensamentos são um véu sobre a face da lua.
Esta lua é o seu coração,
e são os pensamentos que o mantém coberto.
Então deixe-os ir.
Apenas deixe-os cair na água.
Bata,
e Ele irá abrir a porta.
Desapareça,
e Ele o fará brilhar como o sol.
Caia,
e Ele o erguerá aos céus.
Torne-se nada,
e Ele irá torná-lo tudo.
Não procure por Deus,
Procure por aquele
que procura por Deus.
Mas por que procurar afinal?
Ele não está perdido,
Ele está exatamente aqui,
Tão próximo quanto o próprio ar.
Esvazie-se das preocupações.
Pense em quem criou o pensamento!
Por que você permanece na prisão
Quando a porta está tão amplamente aberta?
Saia para fora do emaranhado dos pensamentos medrosos.
Viva em silêncio.
Deixe-se fluir nos sempre amplos
anéis do ser.
Veja, eu estou sempre junto a ti significa que quando você busca por Deus,
Deus está no olhar de seus olhos,
Na reflexão da visão, mais perto de ti que tu mesmo,
ou das coisas que te aconteceram.
Não há necessidade de ir para fora.
Seja como a neve derretida.
Lave-se de si mesmo.
Não corra para lá ou para cá
Buscando ao redor de você –
Ele está em você.
Existe algum lugar onde o sol não brilha?
Existe alguém que não pode ver a lua cheia?
Véu sobre véu, pensamento sobre pensamento –
Deixe-os todos irem,
Pois eles apenas ocultam a verdade.
Mawlana Jalal-ad-Din Muhammad Rumi ou apenas Rumi ou Mevlana, (1207 — 1273), poeta, jurista e teólogo sufi persa do século XIII. Seu nome significa literalmente "Majestade da Religião"; Jalal significa "majestade" e Din significa "religião".
Rumi é, também, um nome descritivo cujo significado é "o romano", pois ele viveu grande parte da sua vida na Anatólia, que era parte do Império Bizantino dois séculos antes.
Os trabalhos de Rumi foram escritos em novo persa. Embora os trabalhos de Rumi houvessem sido escritos em persa, a importância de Rumi transcendeu fronteiras étnicas e nacionais. Seus trabalhos originais são extensamente lidos em sua língua original em toda a região de fala persa.
Traduções de seus trabalhos são bastante populares no sul da Ásia, em turco, árabe e nos países ocidentais. Sua poesia também tem influenciado a literatura persa bem como a literatura em urdu, bengali, árabe e turco. Seus poemas foram extensivamente traduzidos em várias das línguas do mundo e transpostos em vários formatos.
A BBC o descreveu como o "poeta mais popular na América"
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domingo, 8 de setembro de 2013
domingo, 1 de setembro de 2013
Rodolfo Teófilo
OCASO
Helena, vão bem longe aqueles dias,
Lindas manhãs de nossa mocidade.
Como eu te amava, como me querias,
Com todo o amor de tua puberdade!
Que luz serena, quantas alegrias,
Na natureza quanta majestade!...
Tudo cantava, só porque sorrias
Sem ter as tristes notas da saudade.
O sol da vida aos poucos foi subindo;
As ilusões com ele foram indo,
Com elas o viver, viver de enganos.
Aurora, luz, amores e cantares
Tudo se foi... ficando só pesares,
Mudou-se tudo no correr dos anos.
Rodolfo Marcos Teófilo (1853-1932) nasceu na capital da Bahia, no dia 6 de maio e morreu no dia 2 de julho em Fortaleza. Além de jornalista e poeta, exerceu a profissão de farmacêutico. Escreveu muitos contos e romances. Abolicionista de primeira hora e fundador da lendária Padaria Espiritual, em 1892, entidade de fins literários e artísticos que se fundara em Fortaleza. Rodolfo Teófilo usou o pseudônimo de Marcos Serrano quando participou deste célebre movimento.
Foi membro fundador da Academia Cearense de Letras. É considerado um dos principais expoentes da literatura regional-naturalista do Brasil e um dos maiores nomes da literatura do Ceará.
Helena, vão bem longe aqueles dias,
Lindas manhãs de nossa mocidade.
Como eu te amava, como me querias,
Com todo o amor de tua puberdade!
Que luz serena, quantas alegrias,
Na natureza quanta majestade!...
Tudo cantava, só porque sorrias
Sem ter as tristes notas da saudade.
O sol da vida aos poucos foi subindo;
As ilusões com ele foram indo,
Com elas o viver, viver de enganos.
Aurora, luz, amores e cantares
Tudo se foi... ficando só pesares,
Mudou-se tudo no correr dos anos.
Rodolfo Marcos Teófilo (1853-1932) nasceu na capital da Bahia, no dia 6 de maio e morreu no dia 2 de julho em Fortaleza. Além de jornalista e poeta, exerceu a profissão de farmacêutico. Escreveu muitos contos e romances. Abolicionista de primeira hora e fundador da lendária Padaria Espiritual, em 1892, entidade de fins literários e artísticos que se fundara em Fortaleza. Rodolfo Teófilo usou o pseudônimo de Marcos Serrano quando participou deste célebre movimento.
Foi membro fundador da Academia Cearense de Letras. É considerado um dos principais expoentes da literatura regional-naturalista do Brasil e um dos maiores nomes da literatura do Ceará.
domingo, 25 de agosto de 2013
Dezso Kosztolányi
Se, entrado nos quarenta…
Se, entrado nos quarenta, você acorda
uma noite e, por muito tempo, o sono
não vem. Você contempla o quarto escuro
remoendo alguma coisa. Jaz com olhos
abertos como há de jazer um dia
na cova. É então que toma um novo rumo
tua vida. Quão estranho foi – você
se admira – ter vivido entre as estrelas
e a terra! Uma bobagem que te ocorre,
te entretém, te aborrece e já não conta.
Mil ruídos vêm da rua e não há ruído
que não te seja familiar. Você
que está, não triste, só tranqüilo, alerta,
quase em paz, dá um suspiro e, após virar-se
para a parede, dorme novamente.
Se, entrado nos quarenta, você acorda
uma noite e, por muito tempo, o sono
não vem. Você contempla o quarto escuro
remoendo alguma coisa. Jaz com olhos
abertos como há de jazer um dia
na cova. É então que toma um novo rumo
tua vida. Quão estranho foi – você
se admira – ter vivido entre as estrelas
e a terra! Uma bobagem que te ocorre,
te entretém, te aborrece e já não conta.
Mil ruídos vêm da rua e não há ruído
que não te seja familiar. Você
que está, não triste, só tranqüilo, alerta,
quase em paz, dá um suspiro e, após virar-se
para a parede, dorme novamente.
Dezso Kosztolányi (1885 - 1936), um dos maiores escritores da literatura húngara do século XX, foi narrador, poeta, tradutor, ensaísta e jornalista.
Publicou poesia (Queixas de um menino pobre, 1910; Queixas de um homem triste, 1924, e Cálculo, 1935), ensaio, contos e romance; O cometa dourado, 1925; Ana, a doce, 1926 e Nero, o poeta sangrento, 1922).
Cotovia, 1924 e O Tradutor cleptomaníaco são os únicos títulos disponíveis em Português.
domingo, 18 de agosto de 2013
Antonio Machado
Era um menino a sonhar
com um cavalo de cartão.
O menino abriu os olhos
e não viu o cavalinho.
Com um cavalinho branco
ele voltou a sonhar;
pelas crinas o prendia...
Assim não te escaparás!
Mal o conseguiu prender,
logo o menino acordou.
Tinha a sua mão fechada.
O cavalinho voou!
O menino ficou sério,
pensando não ser verdade
um cavalinho sonhado.
Já não voltou a sonhar.
E o menino fez-se moço
e o moço teve um amor,
e dizia à sua amada:
Tu és de verdade ou não?
Quando o moço se fez velho
pensava: Tudo é sonhar,
o cavalinho sonhado
e o cavalo de verdade.
E quando chegou a morte,
o velho ao seu coração
perguntava: Tu és sonho?
Quem saberá se acordou!
Antonio Cipriano José María y Francisco de Santa Ana Machado Ruiz, conhecido como Antonio Machado (1875 — 1939) foi um poeta espanhol, pertencente ao Modernismo.
com um cavalo de cartão.
O menino abriu os olhos
e não viu o cavalinho.
Com um cavalinho branco
ele voltou a sonhar;
pelas crinas o prendia...
Assim não te escaparás!
Mal o conseguiu prender,
logo o menino acordou.
Tinha a sua mão fechada.
O cavalinho voou!
O menino ficou sério,
pensando não ser verdade
um cavalinho sonhado.
Já não voltou a sonhar.
E o menino fez-se moço
e o moço teve um amor,
e dizia à sua amada:
Tu és de verdade ou não?
Quando o moço se fez velho
pensava: Tudo é sonhar,
o cavalinho sonhado
e o cavalo de verdade.
E quando chegou a morte,
o velho ao seu coração
perguntava: Tu és sonho?
Quem saberá se acordou!
Antonio Cipriano José María y Francisco de Santa Ana Machado Ruiz, conhecido como Antonio Machado (1875 — 1939) foi um poeta espanhol, pertencente ao Modernismo.
domingo, 11 de agosto de 2013
Rubén Darío
Passa e esquece
Peregrino que vais buscando em vão
Um caminho melhor que teu caminho,
Como queres que te dê a mão,
Se meu estigma é teu estigma, peregrino?
Não chegarás jamais a teu destino;
Levas a morte em ti como o verme
Que te rói o que tens de humano…
O que tens de humano e de divino!
Segue tranquilamente, Oh! Caminhante!
Ainda te fica muito distante
Esse país incógnito que sonhas…
E sonhar é um mal. Passa e esquece,
Pois se te empenhas em sonhar, te empenhas
Em aventar a chama de tua vida.
(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)
Félix Rubén García Sarmiento, conhecido como Rubén Darío (1867 - 1916), foi um poeta nicaraguense, iniciador e máximo representante do Modernismo literário em língua espanhola.
Os temas espanhóis estão muito presentes em sua produção. Consciente da decadência da Espanha tanto na política como na arte (preocupação que compartilhou com a chamada Geração de 98), se inspira com frequência em personagens e elementos do passado.
Azul... (1888), considerado o livro inaugural do Modernismo hispano-americano, recolhe tanto relatos em prosa como poemas, cuja variedade métrica chamou a atenção da crítica. Apresenta já algumas preocupações características de Darío, como a insatisfação ante a sociedade burguesa.
É possivelmente o poeta que tem tido uma maior e mais duradoura influência na poesia do século XX no âmbito hispânico. É chamado de príncipe das letras castelhanas.
Peregrino que vais buscando em vão
Um caminho melhor que teu caminho,
Como queres que te dê a mão,
Se meu estigma é teu estigma, peregrino?
Não chegarás jamais a teu destino;
Levas a morte em ti como o verme
Que te rói o que tens de humano…
O que tens de humano e de divino!
Segue tranquilamente, Oh! Caminhante!
Ainda te fica muito distante
Esse país incógnito que sonhas…
E sonhar é um mal. Passa e esquece,
Pois se te empenhas em sonhar, te empenhas
Em aventar a chama de tua vida.
(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)
Félix Rubén García Sarmiento, conhecido como Rubén Darío (1867 - 1916), foi um poeta nicaraguense, iniciador e máximo representante do Modernismo literário em língua espanhola.
Os temas espanhóis estão muito presentes em sua produção. Consciente da decadência da Espanha tanto na política como na arte (preocupação que compartilhou com a chamada Geração de 98), se inspira com frequência em personagens e elementos do passado.
Azul... (1888), considerado o livro inaugural do Modernismo hispano-americano, recolhe tanto relatos em prosa como poemas, cuja variedade métrica chamou a atenção da crítica. Apresenta já algumas preocupações características de Darío, como a insatisfação ante a sociedade burguesa.
É possivelmente o poeta que tem tido uma maior e mais duradoura influência na poesia do século XX no âmbito hispânico. É chamado de príncipe das letras castelhanas.
sexta-feira, 9 de agosto de 2013
Exposição - Dostoiévski
Exposição exibe 64 gravuras feitas para livros de Dostoiévski
O Museu Lasar Segall (zona sul de São Paulo) inaugurou no sábado (27/7) a exposição "Noites Brancas: Dostoiévski Ilustrado".
Nela é exibida uma série de litografias que Lasar Segall (1891-1957), artista lituano naturalizado brasileiro, fez em 1917 baseado na novela "Uma Criatura Dócil", do escritor russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881) -criador de "Crime e Castigo", "O Jogador" e "O Idiota".
Exposição Noites brancas: Dostoiévski ilustrado
de 27 de julho a 29 de setembro de 2013
Diariamente das 11h00 às 19h00
Fechado às terças-feiras
Museu Lasar Segall
Rua Berta, 111 - São Paulo -Capital
Mais informações: http://migre.me/fHnnq
O Museu Lasar Segall (zona sul de São Paulo) inaugurou no sábado (27/7) a exposição "Noites Brancas: Dostoiévski Ilustrado".
Nela é exibida uma série de litografias que Lasar Segall (1891-1957), artista lituano naturalizado brasileiro, fez em 1917 baseado na novela "Uma Criatura Dócil", do escritor russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881) -criador de "Crime e Castigo", "O Jogador" e "O Idiota".
Exposição Noites brancas: Dostoiévski ilustrado
de 27 de julho a 29 de setembro de 2013
Diariamente das 11h00 às 19h00
Fechado às terças-feiras
Museu Lasar Segall
Rua Berta, 111 - São Paulo -Capital
Mais informações: http://migre.me/fHnnq
domingo, 4 de agosto de 2013
Ezra Pound
E ASSIM EM NÍNIVE
"Sim! Sou um poeta e sobre minha tumba
Donzelas hão de espalhar pétalas de rosas
E os homens, mirto, antes que a noite
Degole o dia com a espada escura.
"Veja! não cabe a mim
Nem a ti objetar,
Pois o costume é antigo
E aqui em Nínive já observei
Mais de um cantor passar e ir habitar
O horto sombrio onde ninguém perturba
Seu sono ou canto.
E mais de um cantou suas canções
Com mais arte e mais alma do que eu;
E mais de um agora sobrepassa
Com seu laurel de flores
Minha beleza combalida pelas ondas,
Mas eu sou poeta e sobre minha tumba
Todos os homens hão de espalhar pétalas de rosas
Antes que a noite mate a luz
Com sua espada azul.
"Não é, Ruaana, que eu soe mais alto
Ou mais doce que os outros. É que eu
Sou um Poeta, e bebo vida
Como os homens menores bebem vinho."
(tradução de Augusto de Campos)
SAUDAÇÃO
Oh geração dos afetados consumados
e consumadamente deslocados,
Tenho visto pescadores em piqueniques ao sol,
Tenho-os visto, com suas famílias mal-amanhadas,
Tenho visto seus sorrisos transbordantes de dentes
e escutado seus risos desengraçados.
E eu sou mais feliz que vós,
E eles eram mais felizes do que eu;
E os peixes nadam no lago
e não possuem nem o que vestir.
(tradução de Mário Faustino)
Ezra Weston Loomis Pound (1885 — 1972) poeta, músico e crítico literário americano que, junto com T. S. Eliot, foi uma das maiores figuras do movimento modernista da poesia do início do século XX. Ele foi o motor de diversos movimentos modernistas, notadamente do Imagismo e do Vorticismo.
Sua obra, carregada de citações e alusões históricas, permanece uma das mais controversas da poesia deste século. A influência de Ezra Pound e do seu projeto de renovação da linguagem poética fez-se sentir em Joyce, Yeats, William Carlos Williams e particularmente em T. S. Eliot, que submeteu o manuscrito da sua obra The Waste Land à apreciação de Pound antes de o publicar em 1922. As correções feitas por Pound mereceram-lhe a dedicatória de Eliot: "For Ezra Pound, il miglior fabbro" (A Ezra Pound, o melhor artífice).
"Sim! Sou um poeta e sobre minha tumba
Donzelas hão de espalhar pétalas de rosas
E os homens, mirto, antes que a noite
Degole o dia com a espada escura.
"Veja! não cabe a mim
Nem a ti objetar,
Pois o costume é antigo
E aqui em Nínive já observei
Mais de um cantor passar e ir habitar
O horto sombrio onde ninguém perturba
Seu sono ou canto.
E mais de um cantou suas canções
Com mais arte e mais alma do que eu;
E mais de um agora sobrepassa
Com seu laurel de flores
Minha beleza combalida pelas ondas,
Mas eu sou poeta e sobre minha tumba
Todos os homens hão de espalhar pétalas de rosas
Antes que a noite mate a luz
Com sua espada azul.
"Não é, Ruaana, que eu soe mais alto
Ou mais doce que os outros. É que eu
Sou um Poeta, e bebo vida
Como os homens menores bebem vinho."
(tradução de Augusto de Campos)
SAUDAÇÃO
Oh geração dos afetados consumados
e consumadamente deslocados,
Tenho visto pescadores em piqueniques ao sol,
Tenho-os visto, com suas famílias mal-amanhadas,
Tenho visto seus sorrisos transbordantes de dentes
e escutado seus risos desengraçados.
E eu sou mais feliz que vós,
E eles eram mais felizes do que eu;
E os peixes nadam no lago
e não possuem nem o que vestir.
(tradução de Mário Faustino)
Ezra Weston Loomis Pound (1885 — 1972) poeta, músico e crítico literário americano que, junto com T. S. Eliot, foi uma das maiores figuras do movimento modernista da poesia do início do século XX. Ele foi o motor de diversos movimentos modernistas, notadamente do Imagismo e do Vorticismo.
Sua obra, carregada de citações e alusões históricas, permanece uma das mais controversas da poesia deste século. A influência de Ezra Pound e do seu projeto de renovação da linguagem poética fez-se sentir em Joyce, Yeats, William Carlos Williams e particularmente em T. S. Eliot, que submeteu o manuscrito da sua obra The Waste Land à apreciação de Pound antes de o publicar em 1922. As correções feitas por Pound mereceram-lhe a dedicatória de Eliot: "For Ezra Pound, il miglior fabbro" (A Ezra Pound, o melhor artífice).
domingo, 28 de julho de 2013
Konstantinos Kaváfis
À espera dos bárbaros
O que esperamos na ágora reunidos?
É que os bárbaros chegam hoje.
Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?
É que os bárbaros chegam hoje
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.
Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?
É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem ponto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.
Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos,
de ouro e prata finamente cravejados?
É que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.
Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?
É que os bárbaros chegam hoje
e aborrecem arengas, eloquências.
Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?
Porque é já noite, os bárbaros não vêm
e gente recém-chegada das fronteiras
diz que não há mais bárbaros.
Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.
Konstantinos Kaváfis (1863 — 1933) poeta grego, geralmente considerado o maior nome da poesia em idioma grego moderno.Em sua poesia, 154 poemas reelaborados durante a vida inteira, unia citações eruditas à fala cotidiana.
Não chegou a publicar nenhum livro, apenas poemas em folhetins e jornais. Após sua morte, foi publicado um livro com os 154 poemas que escreveu.
O que esperamos na ágora reunidos?
É que os bárbaros chegam hoje.
Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?
É que os bárbaros chegam hoje
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.
Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?
É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem ponto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.
Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos,
de ouro e prata finamente cravejados?
É que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.
Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?
É que os bárbaros chegam hoje
e aborrecem arengas, eloquências.
Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?
Porque é já noite, os bárbaros não vêm
e gente recém-chegada das fronteiras
diz que não há mais bárbaros.
Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.
Konstantinos Kaváfis (1863 — 1933) poeta grego, geralmente considerado o maior nome da poesia em idioma grego moderno.Em sua poesia, 154 poemas reelaborados durante a vida inteira, unia citações eruditas à fala cotidiana.
Não chegou a publicar nenhum livro, apenas poemas em folhetins e jornais. Após sua morte, foi publicado um livro com os 154 poemas que escreveu.
domingo, 21 de julho de 2013
Rui de Noronha - Lua Nova
LUA NOVA
“Quenguêlêquêze!...
“Quenguêlêquêze!... (Lua Nova)
Surgia a lua nova,
E a grande nova
— Quenguêlêquêze!...— ia de boca em boca
Traçando os rostos de expressões estranhas,
Atravessando o bosque, aldeias e montanhas,
Numa alegria enorme, uma alegria louca,
Loucamente,
Perturbadoramente...
Danças fantásticas
Punham nos corpos vibrações elásticas,
Febris,
Ondeando ventres, troncos nus, quadris...
E ao som de palmas
Os homens, cabriolando,
Iam cantando
Medos de estranhas vingativas almas,
Guerras antigas
Com destemidas ímpias inimigas
— obscenidades claras, descaradas,
Que as mulheres ouviam com risadas
Ateando mais e mais
O rítmico calor das danças sensuais.
“Quenguêlêquêze!...
Quenguêlêquêze!...”
Uma mulher
de vez em quando vinha,
Coleava a
espinha,
Gingava as
ancas voluptuosamente,
E diante do
homem, frente a frente,
Punham-se os
dois a simular segredos...
— Nos
arvoredos
Ia um
murmúrio eólico
Que dava à
cena, à luz da lua, um que diabólico...
“Quêze!.Quenguêlêquêze!...”
... Entanto
uma mulher saíra sorrateira
Com outra
mais velhinha;
Dirigiu-se
na sombra à montureira,
Com uma
criancinha.
Fazia escuro
e havia
Ali um
cheiro estranho
As cinzas
ensopadas,
Sobras de
peixe e fezes de rebanho
Misturadas...O
vento, perpassando a cerca de caniço,
Trazia para
fora o ar abafadiço,
Um ar de
podridão...
E as
mulheres entravam com um tição:
E enquanto a
mais idosa
Pegava na
criança e a mostrava à lua
Dizendo-lhe:
“Olha, é a lua”,
A outra,
erguendo a mão,
Lançou
direito à lua a acha luminosa.
— O
estrepitar de palmas foi morrendo...
E a lua foi
crescendo... foi crescendo...
Lentamente...
Como se fora
em brando e afogado leito
Deitaram a
criança, revolando-a,
Ali na
imunda podridão, no escuro,
Lhe deu o
peito...
Então, o pai
chegou,
Cercou-a de
desvelos,
De manso a
conduziu p´los cotovelos,
Tomou-a nos
seus braços e cantou
Esta canção
ardente:
“Meu filho,
eu estou contente!
Agora já na
temo que ninguém
Mofe de ti
na rua,
E diga,
quando errares, que tua mãe
Te não
mostrou a lua!
Agora tens abertos
os ouvidos
Para tudo
compreender;
Teu peito
afoitará, impávido, os rugidos
Das feras,
sem tremer...
Meu filho,
estou contente!
Tu és agora
um ser inteligente,
E assim
há-de crescer, há-de ser homem forte
Até que já
cansado
Um dia muito
velho
De filhos,
rodeado,
Sentido já
dobrar–se o teu joelho
Virá
buscar-te a Morte...
Meu filho,
eu estou contente!
Agora, sim,
sou pai!...”
Na aldeia,
lentamente,
O estrepitar
das palmas foi morrendo...
E a lua foi
crescendo...
— Crescendo
Como um
ai...
Rui de Noronha (1909 -
1943) foi um poeta moçambicano, sendo considerado o precursor da poesia moderna
moçambicana.
Antônio Rui de Noronha,
mestiço, de pai indiano, de origem brâmane, e de mãe negra, foi funcionário
público (Serviço de Portos e Caminho de Ferro) e jornalista. O autor colaborou
na imprensa escrita de Moçambique, notadamente em O Brado Africano, com apenas
17 anos de idade. Esta produção inicial, que se reduziram apenas a três contos,
e que correspondem ainda a uma fase de afirmação literária, virá a ser
prosseguida a partir de 1932, com uma intervenção mais ativa na vida do jornal,
chegando mesmo a integrar o seu corpo diretivo.
Desde logo mostrou e
deixou transparecer, na sua vida e na sua escrita, um temperamento recolhido,
uma personalidade introvertida e amargurada. Foi, sem dúvida, um homem infeliz.
Nunca chegou a concretizar, em vida, o grande sonho de publicar o seu livro de
poemas. No entanto, seu professor de Frances, Dr. Domingos Reis Costa reuniu,
selecionou e revisou 60 poemas para a edição póstuma intitulada Sonetos (1946).
Uma desilusão amorosa,
causada pelo preconceito racial, fez, segundo os seus amigos, com que o
escritor se deixasse morrer no hospital da capital de Moçambique, com 34 anos,
no dia 25 de Dezembro de 1943.
domingo, 14 de julho de 2013
Endre Ady
Recordação de uma noite de verão
Do alto do céu um anjo enraivecido
tocou o alarme para a terra triste.
Endoidaram cem jovens pelo menos,
caíram pelo menos cem estrelas,
pelo menos cem virgens se perderam:
foi uma estranha,
estranhíssima noite de verão.
Nossa velha colméia pegou fogo,
nosso potro melhor quebrou a pata,
os mortos, no meu sonho, estavam vivos
e Burkus, nosso cão fiel, sumiu,
nossa criada Mári, que era muda,
esganiçou de pronto uma canção:
foi uma estranha,
estranhíssima noite de verão.
Os ninguéns exultavam de ousadia,
os justos encolhiam-se e o ladrão,
mesmo o mais tímido, roubou então:
foi uma estranha,
estranhíssima noite de verão.
Sabíamos da imperfeição dos homens,
de suas grandes dívidas de amor:
mas era singular, ainda assim,
o fim de um mundo que chegava ao fim.
Jamais tão zombeteira esteve a lua
e nunca foi menor o ser humano
do que foi nessa tal noite em questão:
foi uma estranha,
estranhíssima noite de verão.
Perversamente em júbilo, a agonia
sobre todas as almas se abatia,
os homens imbuíram-se do fado
recôndito de cada antepassado
e, rumo a bodas de um horror sangrento,
seguia embriagado o pensamento,
o altivo servidor do ser humano,
este, por sua vez, mero aleijão:
foi uma estranha,
estranhíssima noite de verão.
Pensava então, pensava eu, todavia,
que um deus negligenciado voltaria
à vida para me levar à morte,
mas eis que vivo e ainda sou o mesmo
no qual me converteu aquela noite
e, à espera desse deus, recordo agora
uma só noite mais que aterradora
que fez um mundo inteiro soçobrar:
foi uma estranha,
estranhíssima noite de verão.
Endre Ady (1877 — 1919) foi um poeta húngaro que causou controvérsia na época em que escreveu poemas sobre uma mistura de erotismo, profecia, teologia calvinista, patriotismo desesperado e política radical.
Foi o grande pioneiro da literatura húngara moderna e, apesar de estar vinculdao ao Simbolismo, é considerado o introdutor das vanguardas na Hungria.
Junto com seus contemporâneos e amigos, Mihály Babits (também grande ensaísta e tradutor da Divina Comédia), Dezsö Kosztolányi (excelente prosador e romancista) e Gyula Juhász, Ady fundou a mais influente revista literária húngara: Nyugat. O nome quer dizer “Ocidente”, termo cujo sentido mais geral era o mesmo de hoje, só que então se lhe dava um sentido positivo. Até a revista terminar, algo que ocorreu no começo da segunda guerra mundial, todos os poetas e escritores importantes do país estiveram de uma maneira ou de outra ligados a ela.
Do alto do céu um anjo enraivecido
tocou o alarme para a terra triste.
Endoidaram cem jovens pelo menos,
caíram pelo menos cem estrelas,
pelo menos cem virgens se perderam:
foi uma estranha,
estranhíssima noite de verão.
Nossa velha colméia pegou fogo,
nosso potro melhor quebrou a pata,
os mortos, no meu sonho, estavam vivos
e Burkus, nosso cão fiel, sumiu,
nossa criada Mári, que era muda,
esganiçou de pronto uma canção:
foi uma estranha,
estranhíssima noite de verão.
Os ninguéns exultavam de ousadia,
os justos encolhiam-se e o ladrão,
mesmo o mais tímido, roubou então:
foi uma estranha,
estranhíssima noite de verão.
Sabíamos da imperfeição dos homens,
de suas grandes dívidas de amor:
mas era singular, ainda assim,
o fim de um mundo que chegava ao fim.
Jamais tão zombeteira esteve a lua
e nunca foi menor o ser humano
do que foi nessa tal noite em questão:
foi uma estranha,
estranhíssima noite de verão.
Perversamente em júbilo, a agonia
sobre todas as almas se abatia,
os homens imbuíram-se do fado
recôndito de cada antepassado
e, rumo a bodas de um horror sangrento,
seguia embriagado o pensamento,
o altivo servidor do ser humano,
este, por sua vez, mero aleijão:
foi uma estranha,
estranhíssima noite de verão.
Pensava então, pensava eu, todavia,
que um deus negligenciado voltaria
à vida para me levar à morte,
mas eis que vivo e ainda sou o mesmo
no qual me converteu aquela noite
e, à espera desse deus, recordo agora
uma só noite mais que aterradora
que fez um mundo inteiro soçobrar:
foi uma estranha,
estranhíssima noite de verão.
Endre Ady (1877 — 1919) foi um poeta húngaro que causou controvérsia na época em que escreveu poemas sobre uma mistura de erotismo, profecia, teologia calvinista, patriotismo desesperado e política radical.
Foi o grande pioneiro da literatura húngara moderna e, apesar de estar vinculdao ao Simbolismo, é considerado o introdutor das vanguardas na Hungria.
Junto com seus contemporâneos e amigos, Mihály Babits (também grande ensaísta e tradutor da Divina Comédia), Dezsö Kosztolányi (excelente prosador e romancista) e Gyula Juhász, Ady fundou a mais influente revista literária húngara: Nyugat. O nome quer dizer “Ocidente”, termo cujo sentido mais geral era o mesmo de hoje, só que então se lhe dava um sentido positivo. Até a revista terminar, algo que ocorreu no começo da segunda guerra mundial, todos os poetas e escritores importantes do país estiveram de uma maneira ou de outra ligados a ela.
domingo, 7 de julho de 2013
Samuel Beckett
De novo o último refluxo
os pedregulhos mortos
a meia-volta e após as escalas
rumo à antiga iluminação
eu sou aquele curso de areia que passa
entre o cascalho e a duna
a chuva do verão chove sobre minha vida
sobre mim minha vida me vai me caça
e termina no dia da sua iniciação
momento querido eu te vejo
nesta cortina de névoa que desmancha
quando eu já não piso nestas longas soleiras movediças e vivo o tempo de uma porta
que se abre e se fecha
o que eu faria deste mundo sem rosto sem perguntas onde ser não dura mais que um instante onde cada instante
flui pelo vazio o esquecimento de ter sido
sem esta onda onde no fim
corpo e sombra juntos são tragados
o que eu faria sem este silêncio garganta dos murmúrios
ofegando furiosos para o salvamento para o amor
sem este céu que se eleva
da poeira do seu lastro
o que eu faria eu faria como ontem e como hoje
cuidando pela minha janela se eu não estou só
a passear e a virar pra longe de toda a vida
dentro de um espaço fantoche
sem voz entre as vozes
trancadas aqui comigo
eu quero que o meu amor morra
que ele chova sobre o cemitério
e ruelas em que eu vá
lamentando a que pensou me amar
Samuel Beckett (1906 — 1989) dramaturgo e escritor irlandês.
Beckett é amplamente considerado como um dos escritores mais influentes do século XX.Fortemente influenciado por James Joyce, ele é considerado um dos últimos modernistas.Utilizava em suas obras, traduzidas em mais de trinta línguas, uma riqueza metafórica imensa, privilegiando uma visão pessimista acerca do fenômeno humano. É considerado um dos principais autores do denominado teatro do absurdo.
Recebeu o Nobel de Literatura de 1969.
os pedregulhos mortos
a meia-volta e após as escalas
rumo à antiga iluminação
eu sou aquele curso de areia que passa
entre o cascalho e a duna
a chuva do verão chove sobre minha vida
sobre mim minha vida me vai me caça
e termina no dia da sua iniciação
momento querido eu te vejo
nesta cortina de névoa que desmancha
quando eu já não piso nestas longas soleiras movediças e vivo o tempo de uma porta
que se abre e se fecha
o que eu faria deste mundo sem rosto sem perguntas onde ser não dura mais que um instante onde cada instante
flui pelo vazio o esquecimento de ter sido
sem esta onda onde no fim
corpo e sombra juntos são tragados
o que eu faria sem este silêncio garganta dos murmúrios
ofegando furiosos para o salvamento para o amor
sem este céu que se eleva
da poeira do seu lastro
o que eu faria eu faria como ontem e como hoje
cuidando pela minha janela se eu não estou só
a passear e a virar pra longe de toda a vida
dentro de um espaço fantoche
sem voz entre as vozes
trancadas aqui comigo
eu quero que o meu amor morra
que ele chova sobre o cemitério
e ruelas em que eu vá
lamentando a que pensou me amar
Samuel Beckett (1906 — 1989) dramaturgo e escritor irlandês.
Beckett é amplamente considerado como um dos escritores mais influentes do século XX.Fortemente influenciado por James Joyce, ele é considerado um dos últimos modernistas.Utilizava em suas obras, traduzidas em mais de trinta línguas, uma riqueza metafórica imensa, privilegiando uma visão pessimista acerca do fenômeno humano. É considerado um dos principais autores do denominado teatro do absurdo.
Recebeu o Nobel de Literatura de 1969.
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